O Feminismo

Posted on março 2, 2010 por

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Achei um texto no qual a autora culpa o feminismo por diversos problemas sociais que ocorrem atualmente e isso me fez refletir que, afinal, parece que as pessoas ainda não sabem o que significa o feminismo, o que é ser feminista, por isso resolvi escrever sobre o feminismo usando o texto referido.

Já deixo claro que não é uma resposta a autora do texto, que aliás nem sei quem é, e sim um desabafo e um alerta para todos, para que os que desconhecem o feminismo saibam do que estão falando e para as feministas se levantarem e ajudarem a desconstruir essa imagem que as pessoas têm da gente,  para que façamos com que outros aprendam o que é feminismo, para não deixarmos que pessoas afirmem coisas sem base e criem estereótipos por não conhecer o movimento feminista. Ou seja, somos tão culpadas quanto as pessoas que não buscam informações antes de escrever sobre um movimento, uma ideologia, porque nós sabemos e muitas das vezes lemos ou ouvimos absurdos sobre o feminismo e ficamos quietas. Muitas mulheres e homens são feministas e não sabem por não conhecerem o feminismo, ou por terem uma visão deturpada dele, e devemos mudar isso. Por ser um tema delicado, o texto ficou extenso, e por ser um desabafo, posso ter me exaltado em alguns momentos tornando-me sarcástica, debochada.

Também não fiz correção no texto ou citei fontes, podem questionar se tiverem alguma dúvida.

Eis o texto:

Tudo bem que a Liberdade feminina nos ajudou em muitas coisas…

Conquistamos espaços nunca antes sequer almejados por nossas mães ou avós…

Tudo bem que agora temos empregos bem remunerados,com cargos antes sob o domínio masculino,podemos frequentar lugares sem estarmos acompanhadas ….

Tudo bem que agora temos leis que nos amparam contra a violência ,a lei Maria da Penha,temos o direito a criar filhos sozinhas em caso de separação,temos direito á pensão alimentícia..

Tudo bem que somos donas de nossos narizes,independentes !!

Tudo bem que é ótimo termos nossas própias contas bancárias !!

Tudo bem que desencostamos a barriga do tanque e do fogão,pois SABEMOS E PODEMOS fazer mais do que cozinhar e limpar !!

Tudo bem ..tudo bem …tudo bem !!!

Mas será que não confundimos as coisas ??

Será que muitas de nós não acabamos confundindo LIBERDADE com LIBERTINAGEM ??

Vendo a banalização do casamento,onde casa-se e separa-se em questão de dias..

Vendo a promiscuidade que impera..

Vendo virgindade sendo leiloada pela internet..

Vendo mulheres escravas do silicone, do botox, da vaidade….

Vendo milhares de mulheres e meninas escravas da prostituição..

Vendo milhares de crianças jogadas nas ruas por causa da falta de responsabilidade de muitas mulheres ,que engravidam na mesma velocidade que abortam, que abandonam filhos em latas de lixo,jogam em rios…

Será que conquistamos mesmo a liberdade ???

Por ondem andam as milhares de feministas que queimaram os sutiãs á anos atrás,em nome desta liberdade ??

Como estão suas vidas,suas famílias seus filhos,seus sonhos ???

Sou grata a tudo que conquistamos sim,mas as vezes também sinto vergonha do caminho para o qual enveredou nossas conquistas..

Não temos mais as heroínas,as Joanas Dar´c ,as Madres Teresa de Calcutá ,as Irmãs Dulce …

Mas temos a Mulher Melancia,a Mulher Melão e por que não a mulher Jaca…

Temos muita mais a conquistar do que isso…muito mais a oferecer do que bundas e peitos de fora..

Temos sim !!!

A liberdade de escolher o nosso própio caminho,com dignidade !!

O feminismo busca a igualdade entre os sexos. Não considera que uma pessoa valha mais que a outra ou que tenha mais direitos que outra apenas por ser biologicamente diferente, e reconhece e respeita essas diferenças também, e dependendo da “corrente” feminista, a igualdade entre gêneros não é a única idealizada. Há feministas que buscam também a igualdade social, as que lutam pela igualdade entre as diversas formas de identidade sexual e mesmo a igualdade étnica.

O que queremos mostrar é que todos os seres humanos possuem os mesmos direitos independentemente de suas diferenças biológicas, sociais e culturais. Somos todos iguais perante a lei, portanto, não deveria sequer existir uma lei específica para nos proteger ou nos outorgar um direito que é já nosso. Essas leis são medidas paleativas, visam remediar problemas graves que ocorrem por existirem pessoas que não compreendem que todos somos iguais e temos o direito de gozar livremente do que “prega” a Constituição Federal, desde que a respeitemos. É contra essa ideologia de que um determinado grupo é melhor, ou superior,  do que outro devido a uma diferença que nós lutamos.

Não levantamos bandeiras de que a mulher é melhor do que os homens, que a vagina é mais importante que o pênis, levantamos a bandeira de que essa diferença biológica não deve sobrepor-se ao fato de que ambos são seres humanos e possuem os mesmos direitos de serem donos de seus próprios narizes e de viverem da maneira que lhe convir, desde que respeitem as leis que determinam os limites do ir e vir, desde que respeitemos o outro tem os mesmos direitos apesar das diferenças. Acreditamos que um homem ou uma mulher não deve sobrepujar outro ser humano, não importa que diferença existe entre eles. Um não tem mais direito que o outro e nem é dono de  outra pessoa que não dele mesmo. O indivíduo é dono dele, de seu ‘eu’, e mais ninguém.

E se você que leu esses três últimos parágrafos e concordou com cada linha, então, amig@, você é feminista.

Dada essa introdução, vou me ater ao texto que me inspirou a escrever sobre o feminismo para discutir certos pontos.

A autora afirma que a “liberdade feminina ajudou-nos em muitas coisas e que conquistamos espaços antes sequer almejados por nossas mães e avós”… Não é verdade, ainda não estamos livres do machismo e da cultura patriarcal que afirma através de cada ação que somos seres secundários; e nossas mães e avós almejaram muito mais do que conquistamos, pois a pouca autonomia que obtivemos foram almejadas por elas, afinal, elas começaram a luta, muitas morreram por isso antes mesmo de gozarem seus direitos plenos como cidadãs. Elas deram o primeiro passo, então elas almejaram sim, mas a gente que começou a colher os frutos e continuamos com a luta, coisas diferentes.

Nós não temos empregos bem remunerados, a maioria das profissões consideradas “de mulher” não possue um boa remuneração (empregada doméstica, professora, etc) e as mulheres que ocupam os mesmos cargos que homens recebem menos que eles. E enquanto existir esse termo “cargos sob domínio masculino”  continuaremos sendo exceção neles, quando o ideal era que nenhum cargo fosse o domínio de ninguém por causa de um órgão sexual. O que quero dizer é que “afazeres domésticos” não deveria ser classificado como “emprego de mulher” ou que a advocacia seja classificada como um “emprego de homem”. Pois são empregos, não devem ser classificados por gênero. Dito isso, percebe-se que os homens são vítimas do próprio machismo quando desejam seguir uma carreira que está culturalmente arraigada como “de mulher”, o que o torna uma pessoa de classe secundária entre os homens, provando mais uma vez que as mulheres ainda são vistas como pessoas de “segunda classe” e não como igual.


Na próxima linha a autora fala que é uma conquista termos uma lei que nos ampara contra a violência conjugal, ou seja, ela reconhece que a lei é necessária e a acha natural, o que na verdade deveria causar indignação ter que precisar de uma lei especial para que tenhamos o direito de não sermos espancadas por nossos parceiros. Uma lei que existe para ver se assim, com uma punição mais rigorosa, os homens que agridem suas companheiras pensem duas vezes… Por causa da lei! E não porque é um cidadão igual a ele  que está ali e merece seu respeito.  A conquista que desejamos é que homens (e até mulheres) deixem de achar que mulheres são posses, que lhes pertencem (ao homem) e que eles podem jogar no lixo, bater e fazer o que bem quiserem da mesma forma que fariam com uma televisão – aliás, duvido que façam isso com uma televisão, pois é um aparelho caro! Da mesma forma que é ridículo precisar ter que recorrer à justiça para que um pai sustente seu próprio filho. Nota: não estou falando que as leis não são necessárias ou constitucionais, pois o são, apenas afirmo que é triste ter que precisar delas para ter um direito respeitado (no caso a mulher na lei Maria da Penha e a criança com a pensão alimentícia).

Ainda não somos donas de nossos narizes e independentes! Ainda precisamos de permissão da sociedade predominantemente machista  para fazermos o que desejamos, do contrário, somos humilhadas, até mesmo publicamente. Ainda precisamos de proteção para que não sejamos tratadas como objetos. Ainda somos as vítimas, o sexo frágil, a que precisa de proteção porque a sociedade ainda pensa que não somos autossuficientes, capazes, iguais. E pessoas que são frágeis, merecem estar à mercê dos mais fortes e para isso devem obedecer e aceitar tudo que o mais forte considerar que é melhor para você – o mais fraco. Não, não somos nossas donas, ainda sofremos pressões culturais sobre como devemos guiar nossas vidas, ainda temos uma sociedade determinando o que é “ser mulher de verdade”, impondo limites e nos castigando quando o ultrapassamos. Podemos escolher o que fazer, verdade,  mas sofreremos consequências por uma escolha de caráter impróprio para nossa categoria de “assim que mulher deve ser”. Então não, não somos independentes e únicas donas de nossos narizes, ainda precisamos prestar contas e pagar por nossas escolhas. E o mesmo serve para os homens, eles também sofrem pressão social para agirem como um “homem de verdade”  que é ser hipersexualizado, que não demonstra emoções, que é violento, etc. eles podem escolher como serão, mas também sofrerão com as escolhas que não se encaixarem dentro do título “assim deve ser um homem”.

Pulando algumas linhas, chegamos na parte em que a autora questiona se não confundimos liberdade com libertinagem… Essa é uma questão bem complexa, pois é individual e entra no parágrafo acima “podemos escolher, mas não sem sofrer as consequências”.

Bom, para quem não sabe há uma grande diferença entre autonomia sexual e libertinagem. A autonomia sexual significa que a mulher, como indivíduo único e dono de seu corpo, como ser humano, tem o direito de explorar sua própria sexualidade da forma que lhe convir. Se algumas pessoas acham que isso é sinônimo de libertinagem no sentido de buscar prazer sexual imoderadamente, que creio ser o sentido que a autora empregou ao termo, é a escolha da pessoa, portanto, ninguém pode julgá-la por isso a partir do momento que ninguém tem nada que ver com sua vida e nem está sendo prejudicado por essa escolha.

No entanto, o feminismo não queimou sutiãs para que as mulheres pudessem sair a transar com quem quisessem mostrando que são livres, e sim que elas pudessem ter o direito de explorar sua sexualidade, que elas tivessem o direito de dizer não ao parceiro, que elas não se envergonhassem por sentir tesão, prazer sexual, que elas não fossem consideradas promíscuas, impuras, ou anormais por gostar de algo que é natural ao ser humano, o sexo. Apenas deram um basta na questão de que os homens decidem o que é saudável e correto para uma mulher na cama, como ela deve se comportar, e que o prazer deles é mais importante que o delas porque sexo foi feito para apenas os homens gostarem. E muitas feministas da atualidade são contra a promiscuidade, tanto feminina quanto a masculina, elas acreditam em casamento, fidelidade, monogamia e afins. Elas lutam contra a hipersexualidade, enquanto outras não veem nada demais nisso, pois, se algumas mulheres resolveram praticar sexo sem moderação teremos como regra que elas devam ser desvalorizadas como ser humano? Tornam-se escórias, por quê? Por que elas não podem fazer sexo por prazer e com quantos quiserem? Qual o crime nisso? Por que devem pagar por essa escolha se é direito delas escolher? Claro que muitas feministas não concordam com essa atitude liberal por acreditarem que isso ajuda na objetificação da mulher, o que concordo, tornando-as como mero objeto sexual, entretanto, acontece que assim sempre fomos vistas, como objetos, e não é contra a escolha de uma mulher por buscar sexo sem moderação que devemos lutar e sim contra esse determinismo de que somos e gostamos de ser objetos sexuais, quando o que queremos é ter autonomia sexual, e até mesmo libertinagem para algumas, mas sem ter que pagar por isso.

Portanto, mais uma vez, percebemos que não somos independentes, livres e donas de nossos corpos, a partir do momento que alguém, para mais ou para menos, quer ditar como devemos nos comportar para sermos dignas de respeito. Nesse caso, não fazendo sexo com quantos quisermos, pois viraremos objetos. Incrível como alguns homens transam com quantas quiserem e não são tidos como simples objetos sexuais, não é mesmo? Então não é a ação “fazer sexo quando, como, onde e com quantos quiser” que determina o sentido de objeto, esse é o papel que nos deram, às mulheres,  e ficamos na dúvida do que fazer para mudar isso, mas sabemos que não queremos essa “coisificação”. Eu mesma fico “balançada” sobre ser uma feminista mais conservadora na parte sexual como benefício ao grupo, pois não gosto de as mulheres serem vistas como brinquedos sexuais, mas também acho que é direito de cada uma, como indivíduo, escolher fazer o que quiser com sua vida sexual sem ter que sofrer recriminações por isso. Ou seja, o desejo coletivo bate de frente com o desejo individual, então, como fazer? Como disse, é uma questão complexa, mas ainda assim afirmo que a libertinagem não era e nem é o objetivo principal do feminismo ao lutar por uma autonomia sexual feminina, e podemos chamar isso como “efeito colateral”.

Nesse mesmo ponto, na linha debaixo,  entra a questão do casamento. Não banalizamos o casamento, primeiro porque o casamento sempre foi um contrato, antes (e hoje um pouco) com objetivo financeiro, as famílias casavam seus filhos por dotes ou por status, visando o nome, ou para que a mulher tivesse um provedor, alguém que lhe sustentasse, e agora como contrato social, quem é casado é tido como uma pessoa responsável, ou por uma questão religiosa, outros por hábito ou para não ficar sozinho, poucos são os que casam por amor e esse amor dura por todo o casamento.

E os machistas de antigamente traiam suas esposas e elas, como não tinham aonde ir e não passavam de procriadoras sem direito ao prazer sexual – o que era o motivo do marido buscar prazer na rua – aguentavam. Hoje elas ou dão o troco na mesma moeda, ou se separam. E a questão do casamento ser eterno e santo é religiosa, e como vivemos num país laico (ou que prega ser) e democrático, não são todos que são obrigados a achar que não podem se separar se a união deu errado ou que casamento é a tábua da salvação de alguém, ou que ele torna uma pessoa mais digna, mais feliz. Casa quem quiser, separa quem quiser, agora há uma escolha, que também poderá gerar problemas sociais, já que afirmam que as feministas não levam o casamento a sério, sendo que os homens (machistas ou influenciados pelo machismo) nunca levaram antes – eles não traem e abandonam suas esposas por meninas mais jovens, tanto hoje como antigamente, antes do malvado feminismo existir, não é? E que curioso, muitas feministas são casadas, que coisa não?!

Outra crítica feita foi ao leilão de virgindade pela internet, culpa das feministas também… A virgindade, que nada mais é do que uma pele supervalorizada pelos machistas, sempre foi leiloada, vendida para os homens desde que o mundo é mundo, e não, não é culpa do feminismo, é até ridículo pensar isso, já que é um movimento recente, e a exploração sexual feminina existe há milhares de anos. Tudo porque a mulher só servia para isso, sexo, ou para ter bebês, portanto, quem a deflorasse tinha que pagar por isso, seja com um dinheiro dado a quem vendeu a menina, seja para a própria menina através de seus sustento com o matrimônio – ou é mentira que antigamente uma mulher só era apta ao casório e ao sustento do marido se fosse virgem? (isso considerando apenas nossa cultura, hein? porque hoje ainda existem milhares de mulheres que não podem sequer escolher com quem casar e são obrigadas a se manterem virgens, porque do contrário, morrem ou perdem o direito de casar). Agora as próprias mulheres estarem leiloando sua virgindade é motivo de indignação? Para mim é absurdo a exploração sexual como um todo, uma pessoa achar que seu corpo pode ser violado por qualquer um que tiver dinheiro, e principalmente se for contra a vontade da mulher em questão. Uma garota se prostituir, pela internet ou não, é um mal do machismo, do fato de mulheres servirem como brinquedo sexual, não culpem o feminismo por isso já que ele quer exatamente o contrário disso, acabar com a exploração sexual feminina, e se hoje fazem leilão de virgindade pela internet, nada mais “lógico” num mundo cada vez mais movido à tecnologia, e nada mais “correto” as meninas criadas dentro de uma cultura machista, que as veem como objetos, quererem tirar vantagem disso.

Numa outra frase, a autora afirma que somos culpadas pela escravidão estética a qual somos submetidas hoje… É, parece que pelo menos ela não acha que as feministas são todas peludas, feias, gordas e “masculinizadas” como os demais anti-feministas pensam, mas ainda assim a gente ganha a culpa! Lamentável.

Vejamos… Quando vocês ficam sabendo de mulheres que “lutam” contra essa ditadura da beleza padronizada – que fala que mulher é bonita quando magra, loura, cabelos lisos, siliconada, etc. – são mulheres feministas que estavam “lutando”! Sim, a grande maioria das feministas não concorda com essa ditadura, algumas ao ponto de cortarem a depilação e os esmaltes de suas vidas como forma de protesto.  Então, como podem achar que nós incentivamos o botox e o silicone?! Não temos nada contra mulheres que resolvam fazer isso, são pessoas livres e donas de seus corpos, porém, não incentivamos nada disso também. O mercado, a moda, a sociedade machista e patriarcal que determina que “mulheres de verdade” devem ser desejáveis, lindas e maravilhosas fisicamente, custe o que custar e não a gente! É mais fácil você achar uma feminista questionando o por quê da vizinha estar colocando silicone quando ela não precisa, isso sim. E, normalmente, as mulheres que estimulam essa vaidade sem fim, podem até ser feministas, mas nunca se veem como feminista, chega a ser ofensivo para elas ser chamada de feminista, por acharem que estas querem se tornar homens.

Vendo milhares de mulheres e meninas escravas da prostituição..”

Essa frase em particular eu tive que repetir, porque de todas foi a que mais me horrorizou. Como alguém pode achar que um movimento que quer a igualdade entre os sexos, que quer que a mulher deixe de ter uma papel secundário na sociedade, que abomina a mulher como objeto sexual, algumas se excedem beirando o puritanismo por causa disso, pode ter incentivado, de qualquer forma, a exploração sexual feminina? Sério, respondam-me isso, eu não consigo compreender.

Afinal, já lá na época de Jesus Cristo (creio que todos sabem quem é e há quanto tempo foi por isso estou citando-o), a prostituição já existia, e não existia qualquer movimento parecido com o feminismo, correto? Ou estou vivendo numa realidade diferente da maioria? Não existia o papo de autonomia sexual – que creio que a autora pensa ser o incentivador da prostituição. Então, como que pode sequer passar pela cabeça de alguém, por mais ignorante que seja em relação aos objetivos e conceitos do feminismo, que nós incentivamos a prostituição, que nós demos mais armas para isso?

O machismo existe há milhares de anos, arrisco-me a afirmar que existe há mais tempo que a prostituição, e afirmo, dessa vez sem qualquer dúvida, que a prostituição e todas as formas de exploração sexual feminina existem por culpa exclusiva do machismo, e que nós, as feministas, queremos acabar com isso. E vejam bem, queremos acabar com o machismo e, consequentemente, com a exploração sexual feminina, e não com os homens ou com o sexo. Gostamos de sexo e de homens, mesmo quando lésbicas, pois os homens são tão seres humanos quanto nós e merecem respeito, porém, a partir do momento que um homem se acha melhor do que uma mulher e que pode usá-la como quiser, ele perde nosso respeito – o mesmo para mulheres que consideram homens como seres inferiores. Difícil entender isso? Não combatemos os homens, combatemos o machismo, o femismo, o sexismo, o homofobismo, o racismo, as desigualdades.

Depois da falácia acima, a autora diz que é culpa nossa que crianças andam abandonadas pelas ruas e que mulheres engravidam na mesma velocidade em que fazem abortos e que jogam seus filhos no lixo… Acho que é melhor fazer aborto do que jogar o filho no lixo ou abandonar a criança, certo? E que as crianças abandonadas não foram abandonas apenas pelas mães mas pelos pais também, correto? E que não é crime engravidar, até onde sei, aliás, há até uma pressão social em relação a isso, pois, “mulheres de verdade” possuem filhos, não interessa se elas se sentem capazes para cumprir o papel de mãe ou se elas desejam filhos em sua vida. E mais uma vez, mulheres são reduzidas a uma função de reprodução e somente elas são as responsáveis pela criação de uma criança, ao ponto de serem criminalizadas se optarem por não seguirem com uma gravidez indesejada.

Eu, como feminista, posso afirmar que não queremos que mulheres engravidem quando não quiserem ser mães. Pensamos que todas as mulheres têm o direito de fazer o que quiser com seu corpo, e não concordamos que pessoas maltratem crianças, as abandonem, as joguem no lixo, e por isso somos a favor do aborto (ou pelo menos a grande maioria é), mas preferimos que a mulher se cuide para que não engravide a ter que recorrer ao aborto por não desejar ser mãe, pois sempre haverá um risco para sua saúde. Queremos que elas sejam donas de seus corpos e vidas e cuidem bem deles.

E o aborto, que tanto choca, é realizado há muitos anos também – antes do feminismo, inclusive – e mesmo ele sendo considerado crime aqui no Brasil, as mulheres abortam, porém, muitas morrem por complicações, por abortos mal feitos, por não haver cuidado. E as pessoas que são contra o aborto, em sua esmagadora maioria, o é apenas por questões religiosas. Então me digam, alguém falou que as mulheres devem, ou são obrigadas, abortar? Ou fala-se que, já que as mulheres abortam, melhor que o façam de forma segura? Lembro-lhes que buscamos uma autonomia sexual feminina, que as mulheres sejam donas de seus corpos, que exerçam seus direitos, mas que o façam de forma consciente e que não lhes prejudique. Um aborto põe a saúde de uma mulher em risco, por isso, é melhor que ela o faça com assistência médica, se não quiser mesmo a criança, do que o faça de qualquer jeito podendo morrer, ou que tenha a criança para depois abandoná-la ou maltratá-la – o que é muito pior do que abortar em minha opinião. Preferimos que ela se cuide e não engravide do que engravide e aborte, mas achamos que ela tem o direito de abortar com segurança se assim o preferir, ou seja, as mulheres não são obrigadas a abortar, fazem as que quiserem. Se uma pessoa é contra o aborto, basta nunca fazê-lo, mas deve respeitar a opinião da outra pessoa. Como respeitamos os que são contra o aborto. Somos contra a criminalização do aborto e queremos que ele seja feito com assistência médica, o que é completamente aceitável dentro de uma país laico – como o nosso, supostamente, é. E não incentivamos que as mulheres transem, engravidem e abortem, definitivamente.

Já quase no final do texto, somos perguntados se realmente conquistamos nossa liberdade e se estamos satisfeitos com ela, e a autora diz que está satisfeita com algumas conquistas, mas se envergonha do caminho que tomamos… e questiona onde estão as mulheres santas e as queimadas em fogueiras…

Eu respondo: não, não estamos satisfeitas e nem achamos que conquistamos nossa liberdade, porque queremos igualdade e não uma sensação de liberdade. Queremos que o machismo finde. Que as pessoas sejam respeitadas. Que todos vivam com dignidade. Que nenhuma mulher… se envergonhe de ter vagina, de gostar de sexo, de não querer ter filho, de preferir se dedicar a uma carreira, por não querer casar; seja considerada um objeto; tenha sua remuneração quantificada por seu órgão e não por sua capacidade; tenha que se sujeitar aos estereótipos de “mulher de verdade” para ser respeitada porque todas somos mulheres; precise de leis que as protejam de seus parceiros porque eles resolveram ser algozes ao invés de companheiros; tenha que ser forçada psicologicamente a uma ditadura de beleza para ser aceita ou se sentir bonita; veja seus desejos serem desrespeitados; tenha seu corpo maltratado ou violado; seja vista como adereço, ou pessoa de “segunda classe”.

Estamos satisfeitas com o caminho que tomamos sim, mas ainda não chegamos onde queremos chegar, à igualdade, então vamos continuar a percorre-lo e não deixaremos que o machismo macule nossa causa, que nos transforme em bárbaras quando o que queremos é que as barbaridades cometidas contra as mulheres por causa do machismo acabem. Não vamos deixar que machistas nos culpem por problemas que existem por culpa deles. Não deixaremos que o feminismo seja deturpado, pois é isso que desejam, que as pessoas acreditem que queremos acabar com valores morais, acabar com religiões, matar crianças, prostituir mulheres, quando são eles que fazem isso.

E não precisamos queimar ou sermos virgens, puras e abnegadas como santas para sermos respeitadas e ouvidas. Lutamos por isso também e temos certeza de que somos muito mais do que partes da anatomia feminina, diferentemente do que prega o machismo.

Leiam mais sobre o feminismo e o machismo antes de julgar equivocadamente. Verão que muitos desejam a mesma coisa que nós, feministas, mas não sabiam porque deturparam nossa causa.

E feministas, não tenham vergonha de serem feministas, lutem para que todos conheçam nossos verdadeiros objetivos, para que vejam que não somos as “vilãs” na história.





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