“O ciúme é o pior dos monstros criados pela imaginação.”

Posted on julho 13, 2009 por

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Esta frase citada no título, que pertence a Calderón de la Barca, é de um tema bem interessante de se abordar e que já estava rondando minha caixola há dias, mas que só tomou forma ao ler artigos como esse “Mulher joga ácido em outra por ciúmes” e esse outro aqui “Homem se suicida após matar esposa porque achou que lhe traía.” , o tema é o eterno ceifador de relacionamentos, o ciúme.

Quando vejo casos como estes,  me vem as perguntas de sempre: quem disse que ter ciúmes é normal? Por que poucas pessoas acham, como eu, que ciúmes é uma patologia? De onde tiraram que quem ama sente ciúmes ou que o ciúmes é o tempero da relação?

Depois de muitas pesquisas descobri que não estou sozinha, apenas pertenço a uma minoria, então escreverei sobre o assunto com base em minha visão.

ciume

Em primeiro lugar gostaria de mostrar os significados encontrados nos dicionários para a palavra ciúme (do latim zelumen ou zelus que significa zelo):

1  Sentimento doloroso e complexo, nem sempre claro para a pessoa, e que pode envolver tristeza, insegurança e hostilidade, gerado por medo (baseado em motivos reais ou imaginários) da perda de pessoa querida4 [Muito us. no pl.]
2  Restr.  Designação que se dá a vários sentimentos ou tendências ligadas ao ciúme (1): desejo de que alguém querido não se relacione com outras pessoas; incapacidade de aceitar que pessoa querida ou amada goste de outrem; suspeita ou predisposição a suspeitar que pessoa amada é infiel [Nesta acp., muito us. no pl.: Minha esposa não tem ciúmes de mim.]
3  Zelo excessivo por alguma coisa, que leva a não gostar de compartilhá-la, cedê-la, emprestá-la4
4  Sentimento de rivalidade pessoal, depertado por afetos subjetivos (e não pela situação objetiva); hostilidade por alguém, como se suas realizações, qualidades, felicidade etc. significassem ou trouxessem falta de bem-querer em relação à pessoa
5  P.ext.  Despeito, inveja, ressentimento4

1  Sentimento doloroso e complexo, nem sempre claro para a pessoa, e que pode envolver tristeza, insegurança e hostilidade, gerado por medo (baseado em motivos reais ou imaginários) da perda de pessoa querida4 [Muito us. no pl.]

2  Restr.  Designação que se dá a vários sentimentos ou tendências ligadas ao ciúme (1): desejo de que alguém querido não se relacione com outras pessoas; incapacidade de aceitar que pessoa querida ou amada goste de outrem; suspeita ou predisposição a suspeitar que pessoa amada é infiel [Nesta acp., muito us. no pl.: Minha esposa não tem ciúmes de mim.]

3  Zelo excessivo por alguma coisa, que leva a não gostar de compartilhá-la, cedê-la, emprestá-la.

4  Sentimento de rivalidade pessoal, depertado por afetos subjetivos (e não pela situação objetiva); hostilidade por alguém, como se suas realizações, qualidades, felicidade etc. significassem ou trouxessem falta de bem-querer em relação à pessoa.

5  P.ext.  Despeito, inveja, ressentimento.

Podemos achar, simplesmente, também: zelo amoroso, inveja, cuidado demasiado.

“Por sua natureza e seus efeitos, o ciúme se aproxima da inveja. Porém, entre ciúme e inveja permanecem algumas diferenças. Na inveja, sentimos que outros possuem um bem que desejamos para nós, enquanto no ciúme defendemos um bem que julgamos nosso e que não desejamos ver partilhado com outrem.”
(Pierre Charon)

Só com essas definições percebemos que o ‘bicho’ não é bom, mas para ser imparcial e mais ‘profundo’ na ‘análise’ busquei definições para o ciúmes na psicanálise, eis o que encontrei:

“Estado emocional caracterizado pela ansiedade, sentimento de amor e desejo de obter a segurança e a ternura que uma segunda pessoa demonstra a uma terceira.” (DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA, 1978, p.53).

E pode ser classificado em três categorias diferentes:

A primeira seria o ciúme normal, que “visa proteger a pessoa de um sentimento maior de angústia; podendo também ser vivenciado de forma bissexual, ou seja, além de ter ciúme do parceiro perdido e raiva do rival, a pessoa pode ter também uma atração não reconhecida pelo outro do mesmo sexo. A sensação de angústia paasa logo, não é constante e não gera conflitos.”

A segunda categoria é chamada de neurótica, e já foi citada por LACHAUD (1995) como  ” (…)que está lastreada na vivência universal do triângulo edipiano; em suas implicações na competitividade que nasce no indivíduo ao ter que disputar o amor da mãe com o pai, ou, no caso das meninas, do pai com a mãe.”

A terceira é o ciúme paranóide e está definido como “Paranóia: psicose caracterizada, sobretudo, por ilusões físicas. É um sistema delirante durável, com ilusões de perseguição e grandeza, originado na esquizofrenia paranóide. Os ressentimentos são profundos e o paranóico, geralmente, procura atacar aqueles que estiveram presentes em seus conflitos, muitas vezes, por inclusão na fantasia. O paranóico se caracteriza também pelo seu egocentrismo e, em muitos casos, por bom nível de inteligência e vivacidade mental.”

Fonte: DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA, 1978, p.207.

Para Freud  “o ciúme se compõe essencialmente do “leito”, pela dor causada pelo objeto que achamos ter perdido, e pela humilhação narcísica.”

E para LACAN (1966), o ciúme é um sentimento ligado a um tipo bem particular de experiência: “…uma identificação com o irmão pendurado no seio da mãe.”

Todos os autores psicanalistas concordam que ciúme é o medo de perder algo que considera seu, o famoso sentimento de posse, e que surge de diversas formas, tendo a origem em outros sentimentos como inferiorização, exclusão, incerteza, insegurança e baixa autoestima, baseados em suposições ou até em realidades. Mas afirmam que esse sentimento é comum em todos os seres humanos, aparecendo entre os 3 até os 5 anos de idade pela primeira vez, e a diferença está na intensidade e na maneira como sentimos e deixamo-nos influenciar por ele.

A preocupação com o ciúmes desde os tempos remotos do homem ocorre com seu grau neurótico e paranóico, pois estes que tendem a adoecer tanto o ciumento quanto o objeto dos ciúmes.

“De todas as enfermidades que acometem o espírito, o ciúme é aquela a qual tudo serve de alimento e nada serve de remédio.” (Michel de Montaigne)

O ciúme considerado normal, que ficou sendo associado como saudável e até bem quisto em um relacionamento amoroso, tem como significando zelo com a pessoa amada, mas isso é tido como uma crença generalizada da sociedade, segundo estudiosos.

“Se o ciúme é sinal de amor, como querem alguns, é o mesmo que a febre no enfermo. Ela é sinal de que ele vive, porém uma vida enfermica, maldisposta.” (Miguel de Cervantes)

Por isso, se existe o zelo, o cuidado com o ser querido sem a presença do ciúme, os psiquiatras afirmam que é absolutamente normal também. Anormal seria não sentir carinho, apego e necessidade de querer cuidar de quem se gosta, não ter sentimento algum, o que classificam como “embotamento afetivo”, que sugere problemas psicológicos mais severos.

Então, se você não sente ciúmes, ou ele ‘vem e vai’ tão rápido que nem o percebe, mas existe o carinho e a vontade de cuidar de quem você gosta, não há problema algum, bem como não o há em sentir aquela pontadinha de ciúmes, o chamado ciúme normal.

No entanto, se você é do tipo que sempre acha que o(a) parceiro(a) está enganando-o, fica fuxicando seus objetos pessoais atrás de provas disso, pergunta toda hora onde a pessoa está, com quem, o que fazendo, e ainda não satisfeito dá umas incertas para ver se é verdade…é melhor procurar ajuda, pois ainda que não seja um caso grave, já apresenta sintomes do ciúme patológico (paranóico) que já denota problemas graves de personalidade, e a tendência é agravar a situação, podendo chegar ao ponto de acontecer tragédias como citadas nas notícias acima referidas.

“Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões e fazem com que as suspeitas pareçam verdades.” (Miguel de Cervantes)

“O ciumento sempre espiona, sempre duvida, sempre sofre; indaga do passado, do presente, do futuro; nas carícias busca a mentira; no beijo procura a indiferença; no amor teme a hipocrisia.” (Paolo Mantegazza)

Na literatura, muitos autores também já tocaram nesse tema, como:

Machado de Assis em Dom Casmurro em que o personagem Bentinho  morria de ciúmes de Capitu, e a versão contada somente pelo ponto de vista do ciumento até hoje nos faz duvidar se Capitu o traiu ou não.

William Shakespeare o chamou de “o mosntro de olhos verdes’ em sua obra Otelo – O Mouro de Veneza que acabou em tragédia, com a morte de Desdêmoda.

Sócrates também já o citou chamando-o de  “a dor da alma”.

Seja qual for a época, esse sentimento tem sido causador de muitos problemas, e acomete igualmente homens e mulheres, ricos e pobres, de todas as cores e opção sexual…ele não faz distinção. E pode existir em qualquer relacionamento, seja fraternal, maternal ou o sexual mesmo, mas as tragédias ocorrem no sexual.

“Meu Senhor, livrai-me do ciúme! É um monstro de olhos verdes, que escarnece do próprio pasto que o alimenta. Quão felizardo é o enganado que, cônscio de o ser, não ama a sua infiel! Mas que torturas infernais padece o homem que, amando, duvida, e, suspeitando, adora.” (William Shakespeare)

Confesso que o tema ciúmes sempre me causou uma sensação de “não entendo esse tal de ciúme”. Posso tê-lo sentido? Provavelmente, mas não recordo. O que sempre acontece comigo é  ser ‘julgada’ por não senti-lo.

Não sei se por conviver com pessoas com ciúme doentio (como minha mãe, algumas amigas, amigos e namorados) sempre o considerei nocivo e nunca fui empática com essas pessoas, era algo inconcebível para mim ficar dando show, se ridicularizando por causa de outra pessoa, impondo sua vontade sobre a dela e não importava se era algo real ou imaginário (sendo que na maioria das vezes (99%) era por algum motivo imaginário). Viver sempre com o “desconfiômetro” ligado, surtar por qualquer bobeira e acreditar em qualquer pessoa que viesse com intrigas de traição era o ‘supra-sumo’ dos absurdos, e é assim até hoje.

Tive e tenho muitos queixas a respeito de minha ‘falta de ciúme’. Algumas amigas diziam que eu perderia o namorado para outra por não demonstrar a quem ele pertencia (amigas com a patologia), ou então os próprios namorados se queixavam disso (quanto mais ciumento, mais reclamavam da minha falta de ciúme), reclamações do tipo “a namorada/esposa de todo mundo liga toda hora para eles para saber onde estão, que horas voltam etc só você que não, fica parecendo que eu não tenho dona…” Claro que eu respondia com o meu “mas você não tem dona mesmo, afinal não é cachorrinho…” e “para que vou ligar se você já tinha me avisado que ia sair?” Talvez pela competição de ‘o mais amado’ da rodinha de amigos que faziam esses comentários surgirem, já que a maioria das pessoas acredita que sem ciúme não há ‘amor’. Acho que não é necessário fazer cena/show para provar que gosta de alguém, acredito que estar com essa pessoa e trata-la bem já é a prova de que há o ‘amor’ por ela.

O interessante nisso tudo é que, apesar de minha falta de ‘interesse’,  nunca fui traída e não passei meus relacionamentos brigando por coisas que não existiam, pelo menos de minha parte…

Agora, o lance tão comum entre adolescentes – e que descubro recentemente que entre adultos também – de provocar ciúmes no “objeto de interesse”, assumo que lamentavelmente já fiz também em minha adolescência. Porém, enquanto uns fazem isso ainda hoje ou acham bonitinho ter dois caras (ou mulheres) brigando por alguém, eu fiquei envergonhada do ocorrido, achei algo tão imbecil ver dois rapazes brigando sem razão – já que eu correspondia a um deles mesmo, o outro teve apenas seus sentimentos por mim usados de maneira infantil e reprovável – que nunca mais fiz ou aprovei tal comportamento. Mas isso é tido como meigo e romântico…pobres meninos e meninas usados.

Então fica a dica: reflita sobre o sentimento que você conhece como ciúmes e veja se não é ele o que causa tantos aborrecimentos em seu relacionamento. Pense que brigas e viver sob tensão não é saudável e normal para ninguém.

Fontes: Wikipédia, Redepsi, Ajuda Emocional

Para aqueles que se interessam pelo tema ciúme, vai a indicação do livro “Ciúme – O Lado Amargo do Amor” do psiquiatra Eduardo Ferreira Santos.

Leia também algumas dúvidas de leitores respondidas por ele no site da Uol.

Para descontrair deixo a música do Ultraje a Rigor – Ciúme.
Ultraje a Rigor – Ciúme

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