Literaturas Africanas – Um Ensaio III

Posted on maio 29, 2009 por

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Antes de tudo ou nada, devo avisar que o texto abaixo não pertence a mim e sim a Marcelo Moraes Caetano, do site  www.cronopios.com.br, e trago-lhes este ensaio para que conheçam um pouco sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, que tanto adoro.  O trabalho é extenso, mas vale a pena ler, e irei dividí-lo.

“Considerações sobre as origens históricas das literaturas africanas de expressão portuguesa”

Por Marcelo Moraes Caetano

Parte III

ANÁLISE DE ALGUNS POEMAS DAS LITERATURAS AFRICANAS DE EXPRESSÃO PORTUGUESA

José Craveirinha

Aqui estou neurastênico

Como um cão

Danado a lamber a salgada

Crosta das velhas feridas

E em que língua

E com que rosto

Aos meus filhos órfãos de pai

Eu vou dizer que se esqueçam?

A prisão foi um ambiente de enorme sofrimento e luta do povo africano contra o colonialismo português, sendo tema de inspiração constante das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

No título deste poema de Craveirinha, Cela 1, há o lugar em que o corpo e o tempo são marcados pela tentativa de o autor-sujeito poético exprimir seu manifesto contra ao que lhe foi imposto pelo colonialismo: a privação da liberdade.

“Como um cão neurastênico” é uma expressão que traduz a agonia, tanto física, como psíquica, causada em um ser torturado e aprisionado.

O autor moçambicano usa os vocábulos “língua” e “rosto” como questionamento em busca de sua identidade, como elementos da dúvida da alteridade de que fizemos análise acima.

Há, também, a preocupação em como ensinar aos seus filhos, crianças africanas, o idioma português, do povo que dominou África (sua pátria) e seus pais.

É um poema que envia ao colonizador uma mensagem contundente, em que o colonizado, prisioneiro, responde à tortura do regime com um discurso de expressões fortes

AFORISMO
José Craveirinha

Havia uma formiga

Compartilhando comigo o isolamento

e comendo juntos.

Estávamos iguais

Com duas diferenças:

Não era interrogada

e por descuido podiam pisá-la.

mas aos dois intencionalmente

podiam pôr-nos de rastos

mas não podiam

ajoelhar-nos.

“Aforismo” significa “sentença” ou “penitência”. Craveirinha, nesta mensagem/poema, sente e expressa toda a angústia a que foi condenado: ser submetido às humilhações, deixando-se levar pelos colonizadores como um ser insignificante, com uma imagem de quem está cego na transitoriedade da vida humana e se iguala ao inseto que se arrasta pelo chão. Em contrapartida, as formigas, por serem incansáveis trabalhadoras na construção das suas moradas, simbolizam a certeza que há no autor-sujeito poético de que é preciso ser perseverante.

Outro aspecto desse poema é que está escrito no tempo pretérito: “havia”, “estávamos” e “podiam”, de modo que expressa uma ação que passou e o importante, agora, é conquistar a liberdade, sentir-se sempre erguido e retornar à terra natal.

JOANESBURGO
Rui Duarte de Carvalho

Tira o chapéu!

De que distrito vens?

Que é o teu Pai?

Quem é o teu chefe?

Onde pagas imposto?

Em que rio bebes?

Estamos de luto por ti, oh meu país!

A guerra é o tema de reflexão deste poema, e Rui Duarte retrata os questionamentos do pós-guerra, como quem se perguntasse: “Afinal, o que restou de tanta luta?”. A interrogativa insinua a tentativa de se reconquistarem os valores e tradições da cultura africana.

“Estamos de luto” denota todo o sofrimento e dor vividos pelo povo em África. Uma conseqüência amarga, mas que tem acesa a chama da esperança da liberdade.

FÁBULA
José Craveirinha

Menino gordo comprou um balão

E assoprou

Assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou

Assoprou

Assoprou

O balão inchou

Inchou

E rebentou!

Meninos magros apanharam os restos

E fizeram balõezinhos.

Sendo as fábulas historinhas que trazem ensinamento ou moral, o autor se utiliza desse título para induzir o leitor a acreditar que, no cotidiano, ainda que prosaico, há uma realidade a ser aprendida.

Marcados pela dor, os escritores africanos vêem na criança a esperança de uma felicidade espontânea: “menino gordo”, representa os colonizadores felizes e “meninos magros” (que “apanharam os restos / e fizeram balõezinhos”) são os colonizados que assimilaram a cultura européia.

O LAGO DA LUA
Paula Tavares

No lago branco da lua

Lavei meu primeiro sangue

Ao lago branco da lua

voltaria cada mês

para lavar

meu sangue eterno

a cada lua

No lago branco da lua

misturei meu sangue e barro branco

e fiz a caneca

onde bebo

a água amarga da minha sede sem fim

o mel dos dias claros.

Neste lago deposito

minha reserva de sonhos

para tomar.

Os filhos de África cultuam deuses que são buscados nos elementos da natureza. Para os africanos, a natureza é a soberania do universo, donde o homem crê e busca compreensão espiritual, consolo e cura dos problemas voltados para a sensualidade e o erotismo.

O lago da lua é um poema onde se realça a realidade do apelo às crenças através de rituais. O lago estaria ligado aos poderes femininos de encantamento, onde o luar refletido em noites de lua cheia, um espelho d’água noturno, teria o poder de controlar o destino humano, bem como as enchentes, o ritmo de vida da natureza e das mulheres, por meio de periodicidades lunares do ciclo menstrual: “Ao lago branco da lua/voltaria cada mês…”

As cores são muito importantes na cultura africana. Elas são, na verdade, o maior elo entre a matéria e o astral. Os simbolismos das cores, os africanos também o tiravam da natureza, como cita o primeiro verso: “No lago branco da lua”, onde o branco reproduz a pureza e a virgindade.

Há, ainda, nesta poesia, uma característica do sujeito poético, que é transmitir a sensação dos sabores: “a água amarga na minha sede sem fim / o mel dos dias claros”, uma metáfora da angústia representada pelo gosto amargo e o doce do mel, sabor de esperança.

MOÇAMBIQUICIDAS
José Craveirinha

Das incursões bem sucedidas aos povoados

Sobressaem na paisagem as patrícias

Sacarinas capulanas de fumaça

E uma fervura de cinco

Tabuadas e uns onze

– ou talvez só dez –

Cadernos e um giz

Espólio das escolas destruídas.

Sobrevivos moçambiquicidas

Imolam-se mesclados

No infuturo

Após a independência dos países africanos, vem o período da renovação e do resgate da cultura que ficou perdida no tempo do colonialismo. As mulheres moçambicanas são mescladas às mestiças vindas de Portugal, que, agora, se trajam de capulanas — vestimenta usada pelas senhoras de Moçambique.

A poesia fala da alteridade verbal, fato importante das literaturas africanas de expressão portuguesa. Pode-se dizer que foi um período de osmose de idiomas, quando novos vocábulos foram formados, como “infuturo”.

Os versos “Sobrevivos moçambiquicidas/imolam-se mesclados” fala da resistência do povo africano a novas pressões sociais e políticas.

CONCLUSÃO

As literaturas africanas de expressão portuguesa surgem da tensão, que se tornará criativa, entre os paradigmas da metrópole e da colônia. Assim, a língua colonial, a portuguesa, se confronta com as línguas autóctones, o que gera um desconcerto, por parte do colonizado, até mesmo em relação à forma lingüística como deverá expressar-se, a princípio. Some-se a isso o fato de que a tradição de expressão em África é eminentemente oral, o que acirra o embate quando da assimilação da língua portuguesa. Assim, o colonizado, a princípio, com sua identidade fragmentada pelos paradigmas impostos pela metrópole, nem é branco, nem quer ser negro.

Assim, com essa conturbada alteridade, o escritor africano, à medida que se vai conscientizando, vai recorrendo à sua ancestralidade, à infância, em busca do eu genesíaco, muito mais harmônico e ligado à cosmogonia de uma Natureza maternal que vicejava em África.

NOTAS:
__________________________

[i] Agradeço a colaboração insubstituível das professoras Dalva Pontes de Almeida e Raquel Pontes de Almeida.

[ii] Nos países designados pela sigla PALOP, Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, a saber, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

[iii] Sobretudo em Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

[iv] 1975, Angola e Moçambique, os dois maiores países dos PALOPs.

[v] O “conflito” intelectual é o mais comum nas literaturas de outros países, como o Brasil, em que grupos de intelectuais discutem e criam intertextualidades (cf. Julia Kristeva), dialogismos (cf. M. Bakhtin) motivados muito mais por questões subjetivas do que, obviamente, de dignidade ou “sobrevivência”, o que, isto sim, ocorreu em África.

[vi] “Africanizado” seria um termo para designar aqueles que, embora pertencentes ao estatuto de colonizadores, por razões étnicas, sociais, econômicas etc., tinham ideologia e práxis de africanos autóctones, contribuindo com estes na luta pela libertação.

[vii] Repare-se, contudo, que o duro confronto entre o eu-negro e o outro-branco continuará bastante marcado, como é exemplo o poema abaixo, que será analisado à frente, de José Craveirinha: “E em que língua / E com que rosto / Aos meus filhos órfãos de pai / Eu vou dizer que me esqueçam?”

[viii] São citados freqüentemente Manuel Rui e Pepetela como expoentes fortíssimos dessa atual literatura africana.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHABAL, Patrick, Angola: the weight of history. Hardcover: 2007

——–, The postcolonial literature of lusophone Africa. Paperpeck, setember: 2002

ROSA, Manuel Ferreira. A Escola para Angola : Lema escola diferente In: Ultramar. – Vol. V, nº 2
(4º Trimestre 1964), p. 28/43

Marcelo Moraes Caetano é professor de português e literaturas e tradutor de inglês, francês e alemão. Escritor com obras – crítica literária, filosofia, poesia, contos, teatro, entrevistas, traduções – publicadas pelas seguintes editoras: 7 Letras, Vivali, Elite Rio, ONU-UNESCO, Senai, Folha Dirigida, Academia Brasileira de Letras, Academia Brasileira de Filologia, EdUERJ, Litteris. Tem premiações literárias como Prêmio ONU-UNESCO (2005 e 2006), Prêmio da Fundação Guttenberg Bienal Internacional de Literatura Rio de Janeiro, 2007, Prêmio Litteris 2008. Também é pianista clássico com vários prêmios no Brasil e no exterior.

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