Literaturas Africanas – Um Ensaio II

Posted on maio 29, 2009 por

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Antes de tudo ou nada, devo avisar que o texto abaixo não pertence a mim e sim a Marcelo Moraes Caetano, do site http://www.cronopios.com.br, e trago-lhes este ensaio para que conheçam um pouco sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, que tanto adoro. O trabalho é extenso, mas vale a pena ler, e irei dividí-lo.

“Considerações sobre as origens históricas das literaturas africanas de expressão portuguesa”

Por Marcelo Moraes Caetano

Parte II
A ESCOLA E A PRISÃO

Dentro deste processo de surgimento das Literaturas Africanas de expressão portuguesa, dois ambientes apresentam grande expoência: a escola e a prisão.

Sob uma perspectiva mais historicista, há Patrick Chabal, que, quando se refere ao relacionamento do escritor africano com o enorme campo de influência que constitui a oralidade , propõe quatro fases abrangentes da literatura africana. A primeira fase é a da assimilação. Os escritores africanos, quando lhes foi dada a oportunidade de produzir esteticamente, copiam e imitam os mestres, sobretudo europeus, o que converge com o pensamento de Manuel Ferreira, há pouco aludido. A segunda fase é a da resistência. Nesta fase, o escritor africano assume a responsabilidade de construtor, arauto e defensor da cultura africana. É a fase do rompimento com os moldes europeus e consciencialização definitiva de que o homo africano é tão sapiens como o europeu. Esta fase coincide com a da negritude lusófona. A terceira fase da literatura africana coincide com o tempo da afirmação do escritor africano como tal. Esta fase verifica-se depois da independência. O escritor procura, antes de mais nada, marcar o seu lugar na sociedade. Mais do que praticar “o exorcismo do imperialismo cultural”, o escritor africano preocupa-se com “definir a sua posição nas sociedades pós-coloniais em que vive”. A quarta fase, que é a da atualidade, a fase da consolidação do trabalho que se fez, em termos literários, é a fase em que os escritores procuram traçar os novos rumos para o futuro da literatura dentro das coordenadas de cada país, ao mesmo tempo em que se esforçam por garantir, para essas literaturas nacionais, o lugar que lhes compete no cenário literário universal.

Escola e prisão são instrumentos de controle do colonizador sobre o colonizado. A escola deveria promover a dependência intelectual, mental, moral, ideológica, espiritual, estética e ética dos africanos, que só deveriam “aprender” o que favorecesse à metrópole. A prisão, em contrapartida daquele instrumento doutrinador, deveria ser elemento de coerção absoluta, amedrontando, com violência máxima, a qualquer um que pudesse esboçar uma atitude contrária àquela forma que o colonizador ditava como a adequada, o estereótipo a ser seguido.

No entanto, os dois instrumentos supra relacionados se tornam, pouco a pouco, centros de gradativa consciencialização negra. Na escola, tendo aprendido a cultura e a língua do colonizador, o colonizado pode conhecer-lhe a estrutura e, pois, miná-la. A prisão, por seu turno, deixa de ser um local de silêncio, apesar dos contundentes instrumentos e arsenais de coação, e passa a ser sítio de reflexões sociopolíticas e, pois, de reação, primeiro num nível mental, depois num nível pragmático, cuja práxis, repita-se, caminhou no sentido da libertação intelectual, mental, moral, ideológica, espiritual, estética e ética.

A QUESTÃO DA ALTERIDADE NAS LITERATURAS AFRICANAS DE EXPRESSÃO PORTUGUESA

Antes de tudo, cumpre assinalar que a alteridade, em África, foi muito mais do que uma simples técnica literária, ou um elemento de construção textual, em que locutor e interlocutor se põem frente a frente. Isso porque a literatura, no caso de África, surge, como vimos acima, de uma condição de hierarquia, de subjugo, em que o conflito, portanto, é a tônica principal, se não exclusiva, da relação ou do conjunto de relações entre colonizador e colonizado.

Dessa forma, tendo de usar a expressão da metrópole, não apenas do ponto de vista discursivo, como também comportamental e ideológico, e, no entanto, estando em notória situação de desajuste em relação às circunstâncias típicas do ambiente europeu, o africano constrói, a partir de então, sua alteridade com base numa defasagem, o que vem a culminar com complexos, desajustes, conflito interno…

Esse conflito — muito mais antropológico e sociológico do que simplesmente intelectual[v] —, no caso da expressão portuguesa, em África, se resolve numa “tensão criativa”, em que a africanização do elemento lingüístico, a língua portuguesa, se dá com grande força. Tal fenômeno ocorreu, em grande parte, devido à flexibilidade fonética da língua portuguesa, que, pois, eliminou, em grande parte, no africano, o abismo que poderia existir entre querer-dizer e poder-dizer, dando, a ele, possibilidade de construir sua expressão sem abrir mão de suas especificidades culturais, expressão que buscava na realidade, na verossimilhança, seu maior refúgio e objetivo. Em suma, a alteridade, em literaturas africanas de expressão portuguesa, é técnica, mas, muito além, é tema — literário, social, humano.

As literaturas africanas de expressão portuguesa, como foi falado, vêm da negação da tentativa, por parte da metrópole, de impor seu modus vivendi e seu modus agendi sobre a colônia. O africano quer retratar o que tem de peculiar, e, com isso, contribuir com a História, não como mero simulacro de Portugal. Assim, os outros — o colonizado e o africanizado[vi] — têm suas vozes convergindo para a libertação do jugo colonial, conquistando sua dignidade como indivíduos e como sociedade.

Portanto, um importante elemento da alteridade no caso específico das literaturas de expressão portuguesa em África é o fato de que o “eu” africano se embate com o “outro” europeu, adotando-lhe a langue, mas tendo uma distinta parole, já que a língua é da metrópole, mas a fala é da colônia. Assim sendo, ao livrar-se, gradualmente, dos enfeites e das máscaras a que se submetia em face do colonizador, o africano é, a princípio, combalido em seu equilíbrio psicológico, mas, com o tempo, vai discernindo entre os valores alóctones assimilados, a fim de retirar, daí, alguma eventual característica que não seja de todo negativa[vii].

Como fonte “oracular”, o africano elege o tema do regresso: regresso à época anterior à colonização, mas sobretudo regresso à infância, paraíso crepuscular de delícias e sabedorias…

A alteridade, como vimos, ao mesmo tempo ocorrendo no campo da técnica e da temática (pois é uma alteridade discursiva além de buscar libertar o colonizado dos pontos de vista ético, estético, psicológico e cultural fragmentados que a metrópole impunha), será uma alteridade que permanecerá na tentativa de resolução da angústia existencial que caracteriza o romance africano atual[viii].

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