Literaturas Africanas – Um Ensaio I

Posted on maio 29, 2009 por

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Antes de tudo ou nada, devo avisar que o texto abaixo não pertence a mim e sim a Marcelo Moraes Caetano, do site http://www.cronopios.com.br, e trago-lhes este ensaio para que conheçam um pouco sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, que tanto adoro. O trabalho é extenso, mas vale a pena ler, e irei dividí-lo.

“Considerações sobre as origens históricas das literaturas africanas de expressão portuguesa”

Por Marcelo Moraes Caetano

Parte I

“Se a Deos chamão por tu,
e a el Rey chamão por vós,
como chamaremos nós,
a três que não fazem hum,
que o povo indiscreto, e nú
falto de experiência, fez
em lugar de hum três
que com toda a Cortezia
tú, nem vós, nem Senhoria
merecem suas mercês”

António Dias Macedo

INTRODUÇÃO

O aparecimento das literaturas de expressão portuguesa em África[ii] é o resultado de um longo processo histórico de quase quinhentos anos de assimilação (desde o século XVI), ocorrida basicamente devido à colonização sofrida por tais países pelo colonizador, Portugal. É conveniente lembrarmos que os portugueses atravessaram, em 1415, o Estreito de Gibraltar, sendo os primeiros europeus a se situarem em África (Ceuta, em Marrocos), estabelecendo, no território africano, devido à presença de comerciantes, marinheiros etc., o chamado pidgin, de base portuguesa, “idioma” usado com o fito de se estabelecerem as relações, sobretudo comerciais. Esse “idioma” evolui, no caso dos PALOPs, para o crioulo, especialmente nos países em que o comércio era muito valorizado[iii]. Assim, ali conviviam, com as outras línguas de origem autóctone, o pidgin e o crioulo, num imenso mosaico lingüístico, o que, como veremos, foi fator importante de desunião dos africanos durante muito tempo, pois, por não se compreenderem mutuamente, foram mais facilmente absorvidos pelo processo de tentativa de aniquilação cultural que a metrópole desenvolvia e punha em prática sobre eles.

É fundamental observarmos que as literaturas africanas de expressão portuguesa são, portanto, produto ulterior de uma consciencialização que se esboçou mais fortemente nos anos 40 e 50 deste século, tendo sua gênese e desenvolvimento nas chamadas “elites lusófonas”. É preciso, aqui, no entanto, retornar às décadas anteriores, notadamente ao ano 1926, em que António Salazar, primeiro-ministro ditatorial português, estabeleceu uma lei que diferenciava os africanos em “civilizados” e “bárbaros”, sendo que, para serem considerados “civilizados”, teriam de saber falar (e, numa perspectiva idealista, ler e escrever) o português. Daí, dessa lei, é que se inicia, efetivamente, o gérmen do que viria a ser a consciencialização africana, sobretudo, neste momento, no que se refere ao aspecto social do negro em África e diante do mundo. Este foi, pelo que se percebe, um como que “paradoxo”, pois a rigorosa lei, cujo objetivo era aniquilar as culturas dos africanos “selvagens”, ajudou-os grandemente no caminho de sua própria libertação, aumentando-lhes a chance de firmarem-se como povo de expressão cultural vasta, complexa, importante e — autônoma. Isso, como veremos, sobretudo pelo fato de a língua portuguesa, entre outros fatores, ter sido veículo de unificação comunicativa, devido àquela circunstância, acima mencionada, de o mosaico lingüístico não tornar fácil ou sequer viável o diálogo de expressões e idéias entre os africanos, o que veio a ocorrer, repita-se, em grande parte por causa da unidade lingüística promovida pela língua portuguesa.

Portanto, acontece que o escritor africano vive, até à data da independência[iv], no meio de duas realidades a que ele não pode ficar alheio: a sociedade colonial européia e a sociedade africana; os seus escritos são, por isso, o resultado dessa tensão existente entre os dois mundos, um escrito “híbrido”, nascente da realidade dialética, ora com traços inquestionáveis de aculturação, ora com traços (no início inexistentes ou imperceptíveis) de ruptura. No fundo, um escrito africano poderia, naquele momento inicial, ser um escrito europeu, pois os temas, a forma, o estilo, a ideologia — tudo era “branco”, “europeu”, “civilizado”. Com efeito, neste momento, segundo a visão de um Marx, os africanos ainda estavam inteiramente alienados pelo modo de produção colonialista, imbuídos do espírito do colonizador, e de sua ideologia de classe dominante, ainda alheios à consciência e à práxis que esta, no futuro, viria a gerar, como veremos.

Acrescente-se a este quadro alienado e alienante que o escritor africano, apesar dos esforços dos governos portugueses em sentido contrário, recebe constantemente as influências do exterior, pelo que a sua escrita, na forma e no conteúdo, começará a revelar o contato com movimentos e correntes literárias da Europa e da América, em que se destaca o movimento de negritude. Portanto, se, a princípio, em face do colonizador, o africano buscava a sua “adequação” aos moldes ditados pela metrópole, achando-se, inclusive, feio, bárbaro e impróprio se não procurasse, em si e no exterior, os meios de tornar-se “parecido”, o quanto fosse possível, com o colonizador, foram ocorrendo, pouco a pouco, contatos com povos que já haviam adquirido um grau de consciência do processo destrutivo por trás da aparente “inofensiva” aculturação, e aqueles povos conscientes ou em processo de conscientização foram importantes aos africanos de expressão portuguesa, a fim de que estes, juntamente com outros fatores, que serão brevemente analisados, vissem a realidade por trás da “máscara” que se lhes mostrava.

Dessa forma, houve um processo quando se fala em literaturas africanas de língua portuguesa.

Na tentativa de periodizar tal processo, Manuel Ferreira oferece um esquema em que apresenta a emergência da literatura africana, sobretudo no que toca à poesia, ligada ao que ele considera como “os momentos/etapas do produtor do texto”.

No primeiro momento, o escritor está em estado quase absoluto de alienação, inteiramente absorvido pela cultura colonizadora, reproduzindo seus ideais. Os seus textos poderiam ter sido produzidos em qualquer outra parte do mundo: é o menosprezo e a alienação cultural. O segundo momento corresponde à fase em que o escritor ganha a percepção da realidade, apontando distinções geográficas, sociais etc. em relação à “metrópole”. O seu discurso revela influência do meio, bem como os primeiros sinais de sentimento nacional: é a dor de ser negro; o negrismo e o indigenismo. O terceiro momento é aquele em que o escritor adquire a consciência nacional de colonizado. Liberta-se, promovendo um pensamento dialético entre raízes profundas e coibição de sujeição colonial. A prática literária enraíza-se no meio sócio-cultural e geográfico: é a desalienação e o discurso da revolta. O quarto momento corresponde à fase histórica da independência nacional, quando se dá a reconstituição da individualidade plena do escritor africano: é a fase da produção do texto em liberdade, da criatividade.

Embora Manuel Ferreira não fale dele, há o quinto momento, marcado, ora, pela despreocupação em valorizar-se excessivamente a africanidade: as fragilidades humanas, as vulnerabilidades é que são, agora, enfatizadas.

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