Acordo Ortográfico…

Posted on maio 29, 2009 por

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Já sei que muitos estão saturados de tanto ‘ouvir’ falar sobre o ‘monstro’ Acordo Ortográfico, mas eu não poderia deixar de abrir a seção de Língua Portuguesa sem tocar no assunto do momento, entretanto, não vou falar das mudanças – ainda – só irei postar uma entrevista do Mauro de Salles Villar, co-autor do Dicionário Houaiss e diretor do Instituto Antônio Houaiss, que acompanhou todos os detalhes da reforma que deu origem ao acordo ortográfico. A entrevista foi postada pela site ig.com.br

E para que você vai ler essa entrevista?

Para conhecer um pouco dos bastidores das comentadíssimas mudanças.

iG – Como Antônio Houaiss apoiou a reforma?
Mauro de Salles Villar – As conversações, que deram origem ao acordo, aconteceram na década de 1980. Se fosse aprovado esse primeiro projeto, cerca de 98% das palavras sofreriam mudanças. As sugestões do Antônio Houaiss e de outros estudiosos, como João Malaca Casteleiro, de Portugal, simplificavam muito a língua. Eliminavam alguns sinais das palavras, como o agudo, que são desnecessários para a pronunciação.

iG – Por que esse primeiro projeto foi recusado?
Villar – Houve uma reação muito forte em Portugal. Intelectuais e demais portugueses ficaram receosos devido ao medo de descaracterização da língua. As pessoas costumam não aceitar mudanças daquilo que elas dominam. Tudo o que é novo provoca essa ação. Assim, deram início às novas propostas que resultaram na reforma de 1990, gerando o acordo assinado recentemente. Optou-se por algo menos ousado.

iG – Quais as principais diferenças do primeiro projeto da década de 1980 com relação ao atual?
Villar – Ele possui menos alterações, mas cria grafias e acentuações duplas. Percentualmente, as palavras que se alteram são muito insignificantes. Algumas, realmente, simplificam a língua. Por exemplo, tirar o acento circunflexo de palavras terminadas em “oo” – vôo. Essa retirada não é importante, pois a pronúncia continua a mesma. De qualquer maneira, em menor escala, em Portugal algumas pessoas reagiram contra.

iG – O senhor concorda com as mudanças?
Villar – Nós tínhamos a única língua no ocidente que possuía duas formas oficiais de ser escrita. Não existe outra ocidental com essa característica. O árabe, por exemplo, é falado em 21 países de maneira diferente. Mas todos eles escrevem do mesmo modo. A ortografia é uma convenção que pode ser simplificada ou complicada. Muitas foram simplificadas no século XIX. Nós fizemos isso no Terceiro Milênio.

iG – Outras línguas, como o inglês, também possuem divergências…
Villar – O inglês é a segunda mais falada no mundo. Possui pouquíssimas divergências ortográficas. A globalização do inglês ajuda nisso. Porém, é preciso que a língua seja coesa para ser poderosa.

iG – Qual a vantagem do acordo?
Villar – A variedade do português do Brasil e de Portugal é muito aproximada. Não temos razão em ter duas formas oficiais de grafar a língua. Removemos quase 100 anos de imobilidade em direção a uma solução.

iG – Mas o Acordo Ortográfico possui problemas, não?
Villar – A proposta apresenta um percentual de problemas. Mesmo assim, o importante é colocar em movimento essa ação. Depois, aprimoramos conforme o que for levantando.

iG – Quando teremos que fazer outra reforma?
Villar – Não existe um tempo certo. Três décadas se passaram desde a última, que foi feita em 1970, e aconteceram apenas alterações pontuais. No futuro, todas as pessoas que trabalham com a língua poderão sugerir aperfeiçoamentos. Em seguida, os ortógrafos dos sete países deverão analisar essas mudanças.

iG – O Acordo Ortográfico pode ajudar na alfabetização?
Villar – Claro. Simplificar é sempre valioso para a aprendizagem de uma língua. Os problemas acontecem em outras áreas, especialmente, no caso do hífen. O Acordo Ortográfico exclui o hífen de palavras que possuem elemento de ligação como “pé-de-moleque”. A maioria não terá mais o sinal. Porém, há determinadas palavras, tradicionalmente grafadas dessa maneira, que continuaram com o hífen como “cor-de-rosa”. Lexicógrafos portugueses e brasileiros concluíram como agir nesses casos.

iG – A edição revisada do dicionário está finalizada?
Villar – O “Minidicionário Houaiss” foi o primeiro do Brasil a trazer essas alterações ortográficas. Está à venda. O infantil “Meu Primeiro Dicionário Houaiss”, adquirido pelo governo e indicado para crianças pós-alfabetização, também tem. O Grande Houaiss, com mais de 220 mil entradas, vai demorar mais tempo para ficar pronto. Nós estávamos acrescentando novas palavras e melhorando a edição. Agora, que estava quase no fim, teremos que rever desde o primeiro até o último verbete. A obra possui mais de 46 milhões de caracteres sem espaço. Eu imagino que a revisão demore, no mínimo, 20 meses com 10 pessoas muito capazes trabalhando.

iG – O que aconteceria se o acordo fosse recusado?
Villar – Em muitas regiões, o número de falantes da língua portuguesa estava decrescendo. Moçambique entrou para a comunidade britânica. Guiné-Bissau, para a francesa. Isso ameaçava o português, a sétima língua mais falada no mundo – atrás do mandarim, inglês, hindi, espanhol, russo e árabe. Se o português for diferente em cada país, se transformará em outras línguas. Muito aceleradamente perderíamos falantes.

 

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